segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cap 1 : Sora Kurokaze

A lua encontrava-se amarela por detrás da leve neblina que ocupava o céu, criando uma aureola da mesma cor em seu redor. Nestas noites as lanternas não eram acendidas e normalmente a aldeia fazia um festim em honra de Tsukyomi, a deusa da lua. O mesmo havia ocorrido nessa noite. Os habitantes tinham preparado um banquete com travessas enormes repletas dos pratos regionais. As 2 mesas necessárias para que todos os 27 habitantes tivessem o seu lugar tinham sido posicionadas numa fila única, sendo que o lugar da cabeceira, encontrava-se imediatamente a frente do templo e era reservada à divindade. 

As crianças corriam e brincavam, pois uma das vantagens destas noites era a liberdade que os pais lhes proporcionavam devido às tarefas que precisavam de fazer. A aldeia não era grande e todos os habitantes consideravam-na abençoada devido ao numero de crianças presentes, 7 para apenas 3 casais jovens. Os dois rapazes mais velhos olhavam pelos outros mantendo-se fora das brincadeiras infantis para as quais acreditavam já não ter idade. Ambos eram alunos do único guerreiro da aldeia pois acreditavam que quando o jovem nómada partisse, alguém teria de ficar e proteger os demais. 
- Quando é que achas que ela aparece, Nishi-kun? - perguntou o mais novo dos dois
- O sacerdote ainda deve estar a terminar a lição de hoje - respondeu o outro, um rapaz já com os seus 14 anos, de cabelo apanhado num pequeno rabo de cavalo e olhos mais abertos do que o normal. Ele envergava um quimono cinza e mantinha preso ao cinto, do seu lado direito a Bokken que o seu sensei lhe havia dado. 

Dentro do templo, um homem com já os seus 60 e poucos anos, ouvia atentamente ao mantra que a sua jovem discípula entoava procurando uma falha, uma quebra na voz, algum erro. Se tal acontecesse, ela teria de recomeçar e provavelmente chegariam atrasados ao banquete em honra da deusa. Ela seria castigada se tal acontecesse, pensava o velho sacerdote para consigo quando um barulho seco surgiu do sótão e fez com que o sacerdote se apercebesse que o mantra havia terminado à já algum tempo. A rapariga, de longos cabelos castanhos claros, lisos, que lhe caiam por cima do peito, contrastando com o kimono azul celeste.
- Masamoto-senpai? - inquirio ela com os olhos azuis, tão invulgares naquela terra.
- Recitas-te o mantra perfeitamente. Mais uns anos e poderás tomar o meu lugar como sacerdotisa - respondeu-lhe ele sorrindo - Podes-te retirar e juntar-te às outras crianças-
- Obrigado senpai - disse levantando-se
Masamoto esperou até que a jovem se tivesse retirado para ir até às traseiras do templo onde se encontrava uma escadaria semi-oculta pela estátua e subiu até ao piso superior onde parou a frente de uma porta de correr de papel branco. Do outro lado desta fina parede ouvia-se um corpo a mover-se e a embater contra os limites do quarto como se o seu produtor estivesse a ter um pesadelo, e tratando-se de quem era, o sacerdote irrompeu pelo quarto a dentro, encontrando um futon desfeito e o seu anterior utilizador em pé no centro do quarto.

O tatami apresentava golpes profundos e erráticos, tal como as paredes. O jovem que se encontrava de pé no quarto emitia uma aura forte e violenta como uma chama atiçada pelo vento. Ao sentir a presença do velho monge, este virou-se para o encarar. O rapaz cujo cabelo preto chegava aos ombros tinha apenas o olho direito aberto que revelava uma íris verde esmeralda. O seu corpo desnudo brilhava na parca luz da lua que entrava pela única janela do quarto enquanto o suor escorria por ele. O braço direito dele encontrava-se transfigurado, maior do que o suposto, dava-lhe agora pela canela e a sua grossura era 2 vezes o normal no braço e 4 vezes no antebraço, com as veias salientes, pulsantes, e a pele endurecida e brilhante, como a casca de um insecto. Na mão já não existiam 5 dedos, mas sim 3, todos armados de longas garras negras, e no pulso encontrava-se um perturbador olho roxo que olhava electricamente de um lado para o outro. Deu então um passo na direcção do monge, erguendo o braço como se de uma espada se tratasse, pronto a empala-lo.
- Kurokaze-kun! Desperta do teu sono maléfico! - gritou o velho, numa vã tentativa de acordar o jovem.
O rapaz não escutou as palavras que lhe eram dirigidas. Estava muito perdido nos seus próprios pesadelos, nas recordações do seu passado. O corpo atirou o braço para a frente visando o coração do sacerdote que termia de medo, quando um grito estridente entrou pela janela, paralisando o braço jovem a milímetros do peito do outro homem que suspirou ao perceber que estava salvo.

O outro olho de Kurokaze abriu-se revelando um castanho intenso. O braço retomou as suas dimensões e forma normal. Voltou as costas ao monge e aproximou-se rapidamente da janela para ver o que tinha originado aquele grito e foi então que viu: uma das mesas tinha sido derrubada e no tampo desta encontrava-se um dos velhotes trespassado por uma lança; as mulheres tinha sido separadas dos homens e eram rodeados por 5 bandidos armados com katanas e outros 2 que empunhavam lanças; 2 crianças estavam deitadas no chão e as restantes escondiam-se atras dos dois rapazes que empunhavam as suas bokken. Um dos 3 mercenários que se encontravam a guardar as mulheres cravou a sua katana no chão e desembainhou a sua wakisashi.
- Deitem esses paus para o chão antes que eu vos magoe - disse no meio de risos partilhados pelos seus companheiros
- Maldito! - gritou Nishi, enquanto deu uma passada em frente atirando a arma de forma a visar o pescoço do seu adversário.
O homem, por ser mais velho e ter de longe mais experiência em lutas que o rapaz desviou-se com facilidade e desferiu-lhe um soco no estômago, que lhe tirou as forças e o ar. Olhou então na direcção da cadeira cerimonial de Tsukiyomi, como se esperasse uma ordem, que rapidamente chegou. Gritos de pânico e suplicas encheram o ar, provenientes dos aldeões prisioneiros.
- Mata-o - disse uma voz calma, mas que no entanto se sobrepôs aos gritos e pedidos de clemencia.
O bandido virou a ponta da sua arma para baixo e desceu o braço sem um momento de hesitação, no entanto não foi sangue que espirrou quando a sua lamina encontrou resistência, mas sim faiscas. A surpresa apoderou-se dele e não teve tempo de se desviar da parte detrás da katana do seu oponente, que o enviou então para trás e o deixou sem sentidos.


- Quem é o próximo? - disse um jovem de espada erguida e armadura de samurai vestida, com um olho de cada cor fixado nos do homem sentado na cadeira destinada à deusa.
- Sora-kun, finalmente reencontramos-nos. Passaram-se o que 5 anos? - disse o samurai de armadura preta com mascara branca. - Estou a ver que evoluíste, mas será essa evolução suficiente para protegeres esta aldeia? - foi dizendo enquanto se levantou e aproximou-se do ser companheiro derrotado
- Não sei quem és, mas peço te pela nossa honra como samurai que me enfrentes em duelo e se perderes, abandonas esta aldeia mais os teus seguidores.
- Não sabes quem sou? Já não te lembras do homem que desfiguraste?! - e dito isto sacou a sua espada e enviou uma onda de energia que cortou a mesa e parte da casa que se encontrava perto desta - Já não te lembras de quem te ensinou a lutar e que no fim trais-te como se eu fosse um qualquer?! NÃO TE LEMBRAS DO TEU PRÓPRIO IRMÃO?!!!


Sora esboçou uma cara de espanto e não reagiu a tempo de evitar uma segunda onda de energia que foi dirigida aos homens. os 12 homens ajoelhados mais os seus 7 captores foram atirados pelo ar, alguns ficando com cortes profundos ou arranhões resultantes da explosão de energia. Quando viu que o homem se preparava para repetir o golpe na direcção do grupo de mulheres atirou-se para o pequeno espaço entre ele e o grupo, escondendo-se atrás do seu braço direito que se deformou automaticamente e funcionou como um escudo que o protegeu da explosão de energia. Os companheiros do samurai desbandaram deixando este sozinho. Este tirou a mascara e o capacete revelando uma cara queimada
- Tu não podes ser... Akira? - disse Sora enquanto as mulheres se espalhavam e afastavam dos dois samurais - Tu morreste! Eu vi-te a arder quando a arena se incendiou!
- Aparentemente estou vivo, não achas? - e enviou outra onda de energia que Sora parou com o braço. - Que braço todo catita e esse?
O jovem samurai avançou e deferiu um golpe horizontal que tinha como alvo as canelas de outro. O golpe terminou na lâmina da espada do adversário e uma onda surgiu por trás deste.
- Sabes a dor de sentires a tua carne a queimar lentamente?! - outro golpe, agora para o peito, habilmente defendido - A dor de veres o teu irmão abandonar-te enquanto sofres?! - outro golpe, mais forte forçando Sora a libertar um esgar de dor - A DOR DE PERCEBERES QUE SEMPRE ESTIVESTE SÓ?!!!
- Gritas muito. - disse dando um soco com o braço direito, que enviou Akira 3 metros para para trás indo bater contra o templo - Se bem te lembras, TU tentaste matar-me quando estava-mos no poço, eu só me defendi, e de te deixei foi porque pensei que tinhas morrido. - um outro choque de lâminas criou uma onda de choque que rachou a terra sob os pés deles.


" Não acredito nisto! Como pode ele ser mais poderoso do que eu?!" pensou Akira enquanto se afastava ofegante " A minha hipótese é de o fizer cair pela cascata a baixo". Akira começou a correr para lá do templo e para o interior da floresta com Sora no seu encalço.
- Não sejas cobarde e volta aqui Akira!!
- Tu e que és o cobarde por me teres abandonado às portas da morte! - Akira começava a perder a distância entre si e o irmão, mas isso não importava a cascata era já ali à frente.
Sora esmurrou uma árvore, rachando o tronco o suficiente para que este começasse a tombar na direcção de Akira. Este apercebeu-se e rebolou para longe da zona de queda da árvore. Percorreu mais meia dúzia de metros e quando alcançou a clareira antes da falésia, sentiu um empurrão nas costas que o precipitou para a frente caindo pela falésia. Sora não esperava que houvesse ali um precipício ou então não teria saltado de forma tão temerária. Agora ambos caiam para a morte gelada que as aguas de inverno apresentavam dezenas de metros abaixo deles
- Perdoa-me Akira. Eu nunca quis que te magoasses - disse Sora por entre lágrimas quando viu o rio tão próximo que lhe sentia o cheiro.


A sua cara batera contra algo sólido. Os olhos não viam bem, desfocado e tremido. Rastejou até uma forma humana que se encontrava deitada à sua frente. " Akira" pensou para consigo, mas ao poisar a mão no peito da figura sentiu apenas um seio macio. " Espera ai!" voltou a apalpar antes de erguer a cabeça um pouco mais e ver que a figura se tratava de uma rapariga loira inconsciente. O samurai recuou automaticamente " O meu irmão?!" e ouviu um raspar no interior do seu cérebro seguido de uma voz profunda e antiga que disse apenas isto:
- Bem-vindo ao Nexus, Kurokaze Sora.

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